Eduardo Ochs (@wordpress)


Assédios – parte 1
May 5, 2013, 10:09 am
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Um aviso: quando eu comecei a escrever isto eu achava que ia conseguir chegar a um certo ponto – que eu conseguiria falar de certos aspectos da “condição masculina” que não andam sendo muito mencionados, e de certos pontos cegos que os homens aprendem a ter, e, daí de um furo em certos discursos feministas – muitos homens não fazem idéia de como deixarem de ser machistas… eu acreditava até que eu iria conseguir fazer uma certa proposta concreta – mas não deu: toda vez que eu tento chegar perto das idéias dela a minha sensação é de “não tenho como falar sobre isso agora – não de um jeito que bastante gente entenda”… aí resolvi arriscar, postar isto num lugar público assim mesmo, e ver que comentários aparecem.

(1)

Vou começar descrevendo algumas cenas pelas quais eu passei.

1) Quando eu tinha uns 14 ou 15 anos, um dia eu estava voltando de ônibus do colégio e um sujeito se sentou do meu lado e começou a alisar – MUITO de leve – o meu braço com as pontas dos dedos. Eu tentei olhar pra ele, assustado, e ele estava com uma cara tão rígida e impenetrável que era como se não estivesse acontecendo nada, e como se eu não tivesse motivo nenhum pra olhar pra ele e eu só pudesse estar olhando pra algo do outro lado do ônibus… aí eu fiquei muito em dúvida, voltei a olhar pra frente, e aí tive a sensação de que ele DEVIA estar me alisando com a ponta dos dedos de novo, e tentei olhar pra ele de novo – mesmo que ele só estivesse esbarrando em mim por acidente quando o ônibus balançava eu queria que aquilo não acontecesse – e quando eu olhei pra ele ele estava com exatamente a mesma cara, e aí não tinha nada que eu conseguisse dizer, eu virei pra frente de novo e a sensação de que ele TALVEZ estivesse me alisando continuou… e, bom, eu fiquei meio perdido e em pânico, e aí levantei e saltei do ônibus. Não lembro o que aconteceu depois – é possível até que eu não tivesse dinheiro pra outra passagem, e que eu tenha feito o resto do caminho pra casa a pé. Mas tenho a impressão de que essa história não foi especialmente traumática, ou marcante.

2) Teve uma noite – acho que eu devia ter uns 17 anos, porque acho que foi quando eu tinha dois moicanos, ou perto dessa época – em que eu estava voltando de Ipanema (talvez da casa da Marta, que era minha melhor amiga) pra minha casa (no Jardim Botânico) a pé, de madrugada, mas pela rua onde passavam os ônibus; se passasse um ônibus eu pegaria, senão eu andaria a pé um pouco mais de uma hora…

Aí um carro começou a andar do meu lado, exatamente na minha velocidade. Eu ignorei, mas aí o motorista – que devia ter uns 28 ou 30 anos – começou a tentar falar comigo. “Pra onde você está indo? Eu te dou uma carona!” Eu disse que não estava interessado, mas ele avisou que era só uma carona mesmo, que ele não faria nada demais. Eu olhei pra ele com uma cara séria, e ele prometeu. Eu resolvi que iria arriscar – e que eu não tinha muito a perder – e entrei no carro. Ele começou a conversar comigo. Não sei reconstruir o que foi a conversa, mas lembro dele sendo meio simpático, meio sem jeito, e dele me perguntando do que eu gostava em termos de sexo, e de eu rebatendo perguntando o que ele gostava em termos de música e drogas – porque afinal essas eram as coisas que eram mais importantes pra mim, e no meu mundo sexo não existia, era algo infinitamente inacessível – mas ao mesmo tempo eu me sentia um aleijado no meu grupo por causa disso, porque parecia que todo mundo já tinha passado pelo ritual de iniciação mais importante de todos, que era perder a virgindade, e eu não.

Lembro dele pedindo pra eu pôr a mão na perna dele, e eu tentando e achando sem graça, e eu imaginando que se aquilo tinha alguma mágica pra ele e nenhuma pra mim então era porque a nossa sintonia não estava grande coisa, e que não dava pra perder a virgindade numa situação daquelas.

Lembro dele achando que a nossa sintonia devia estar melhorando rápido o suficiente, e indo na direção dos motéis da Av. Niemeyer – e eu cortando o otimismo dele e abrindo a porta do carro em movimento pra ele não conseguir continuar rodando sem chamar muita atenção, e pra ele ver que eu tava falando sério. Ele entendeu, e me deixou perto da minha casa.

3) Teve uma outra vez – acho que aí eu devia ter uns 19 – em que eu estava esperando o metrô, de noite, na Estação Carioca, que estava praticamente vazia. Eu estava sentado no chão com as costas na parede, como eu sempre fazia, e um sujeito gordo, com um terno bagunçado e cara de quem levava uma vida totalmente sedentária e embolorada, com um olhar de quem vivia baratinado de ansiedade e não ficava “normal” nunca, ficou olhando fixamente pra mim. Aí ele começou a fazer uns sinais pra mim – algo tipo “ei, ei, quer trepar?” – mas nessa época eu já estava bastante acostumado com que a vida era um nojo, e só olhei bem pra ele e fiz um sinal com o polegar pra baixo: “NÃO, não rola. NADA. Tchau.”

Agora repara.

No caso do ônibus nem ADIANTAVA dizer “não”.

No caso do carro o cara foi meio insistente, mas o diálogo era possível. Era um convite. Se por um lado pode ter sido meio sem jeito, por outro lado era um tipo de situação que precisava de muita “iniciativa” (no sentido deste texto) pra funcionar… seria difícil o cara ter sido muito mais legal e diplomático e interessante. Não tenho nenhuma mágoa desse cara, e achei até bem legal ele ter tido coragem de me abordar, e ele ter me escolhido.

No caso do metrô não valia a pena dialogar. O próprio cara não parecia saber dialogar na situação em que estava. A imagem que eu faço dele é que na maior parte do dia ele devia fazer o trabalho dele de um jeito cinzento e ninguém sabia direito o que ele pensava – ninguém se aproximava, ninguém se interessava. De noite ele era um pouco menos discreto, mas o imaginário dele era todo construído a partir de revistas e filmes pornôs.

Eu disse que queria montar umas idéias, e apontar pra alguns furos no discurso feminista usual. Já tenho as palavras-chave. Desejo. Iniciativa. Nojo. Monstro. Diálogo.

(2)

A gente vê o cara que assedia como “monstro”. Ele é estúpido. Nós o denunciamos. Eu gosto de pensar usando pronomes; o cara que assedia é um “ele”, não um “nós”.

O que torna ele um “ele”? O que faz com que cortemos os laços e o excluamos do “nós”, empurrando-o pra fora, transformando-o num puro “ele”?

Minha hipótese: quando nós olhamos nos olhos dele nós vemos o que ele deseja. E ficamos com nojo.

(3)

Quando eu me tornei adolescente eu não pude mais continuar sendo um nerd sem corpo – o ataque dos hormônios transformava a minha cabeça numa bagunça. Eu sabia que quem lesse os meus pensamentos me detestaria. Eu tentava controlá-los, mas não dava. Dava pra controlar o que eu fazia na prática, mas os pensamentos era difícil.

Talvez os meus colegas de colégio que me pareciam felizes e espontâneos não tivessem esses problemas. Talvez eles tivessem se livrado da parte suja. Talvez eles sentissem que o que eles pensavam era natural. E talvez o que tornava os meus pensamentos cada vez mais graves fosse exatamente a culpa.

Eu achava que se eu dissesse “oi” pra uma pessoa que eu achava bonita eu levaria um fora.

Por um lado eu tinha inveja das pessoas que agiam com naturalidade e tinham segurança e iniciativa. Por outro lado eu sabia que as pessoas “seguras” eram as que podiam ser sem noção e estúpidas, não perceberem o que faziam e muito menos se desculparem. Eu não queria ser uma delas.

Eu não sabia em que direção ir – não bastava eu pensar “quero ser menos inseguro”. Faltava alguma coisa, que eu levei anos pra conseguir nomear. Acho que devo conseguir explicar essa idéia que faltava num próximo texto, mas vai ter que ser aos poucos, porque acho que ela faz pouco sentido pra brasileiros e nenhum sentido pra cariocas (típicos).

(4)

Acho irreal achar que os “monstros” vão ser sempre os outros, nunca nós mesmos.

Pessoas têm desejos “errados” que podem assustar os outros e causar rejeição – isso acontece com todo mundo. E aí as alternativas mais óbvias (extremas) são: ou essas pessoas os ignoram e os negam, esperando que eles desapareçam – e aí eles fermentam e viram monstros escondidos no porão – ou elas decidem ignorar a rejeição dos outros e dar vazão a eles.

Tem duas expressões cristãs que vale a pena a gente pensar sobre elas: “pecar em atos” e “pecar em pensamentos”. Às vezes os dois tipos de pecados são considerados igualmente graves (link). Outro termo bem interessante – e típico da cultura carioca – é “marrento”.

Uma trilha bem rica pra gente fazer teorias sobre porque pessoas se tornam machistas, homofóbicas, reacionárias, etc – digo “teorias” porque a gente precisa pensar bastante pra ver como essas pessoas poderiam mudar – seria ver o vocabulário que a Psicanálise tem sobre isto, que não é pequeno… a Wikipedia em Inglês põe este índice de tópicos no fim de algumas páginas – talvez alguém de Psicologia saiba de algo parecido em Português…

(5)

Eu pensei em fazer um cartaz pra Marcha dizendo isto:

Onde machismo é tolerado
babaquice e deboche são normais
e pessoas atentas e honestas
que pensam nas consequências
do que fazem são ridículas
(e qualquer homem um pouquinho
menos estúpido é considerado o
máximo, e relações de confiança
são quase impossíveis)

mas tem muito texto e idéias demais.

(6)

Eu não mencionei isto no início, mas eu tive sequelas de estupro bem graves durante pelo menos uns 5 anos – e foram causadas por um “namoro” hétero.

Nenhuma cantada ou assédio gay me deixou marcas – nem os que aparentemente seriam os piores deles: nem o do ônibus, nem um outro, que eu não contei, em que o meu amigo tentou me “convencer” usando força física. Isso foi superficial. Mas eu saí da minha história com a Aline destruído – levei anos muito mal, em pânico, sem conseguir olhar nos olhos de ninguém. Três anos pra conseguir começar a escrever sobre essa história que ninguém entenderia – “A gente sempre aprende com qualquer relação, dizem. Eu aprendi que qualquer pessoa podia ser uma Aline.” – e mais 7 anos pra tornar público meu blog secreto.

Eu tenho pensado muito no que faz a gente se sentir violado.

Uma coisa é a gente levar um soco numa luta na qual os dois estavam preparados. Outra coisa é alguém em quem você confiava muito e tratava como seu melhor amigo puxar uma faca, enfiar no seu nariz e te fazer refém. Isso destrói a capacidade de confiar.

Muitos homens que eu conheço – muitos mesmo, mas algumas mulheres também – agem como se confiança fosse coisa de otário. Essas pessoas ficam se testando o tempo todo, e rindo da cara das outras quando as outras caem em alguma pegadinha. O texto abaixo é de um cara desses (linklink):

SOBRE AMIZADES E POLÍTICA: Percebi pela Análise Sociográfica das Redes Sociais como que a forma como nós, reacionários direitistas trogloditas conservadores do mal nos tratamos é… legal pra caralho! Um posta uma coisa, outro xinga de corno pelo gosto musical ser uma bosta, chamamos respondemos com considerações sobre as preferências sexuais do primeiro, rola uma zoada com a mãe, aí um terceiro manda beijo irônico, todos mandamos um ao outro tomar no cu e termina sempre com umas indiretas sobre o Morgen escrever demais.

Sabe por quê? Porque nós somos amigos pra caralho, porra!

E a função social de um amigo é te zoar em público antes que outras pessoas o façam. É por isso que provas são tão difíceis, que o treinamento no Exército é barra pesada e também por isso que inventaram palavrões.

Aí você vê o pessoal de esquerda. E é tudo um fru-fru mongo, um teatrinho de lambeções sem ofender a hipersensibilidade alheia, um troca-troca de vaidades que faria a corte de Luiz XIV parecer a Banheira do Gugu.

Todo mundo se chama de “companheiro” (você precisa chamar seus amigos de “amigos”, ou só fala: “Chega aí, bichona”?), todo mundo respeita o gosto musical um do outro (ABSURDO DOS ABSURDOS, isso não pode acontecer nunca entre 2 seres humanos adultos, conscientes e vacinados!!), nunca se vê uma ironia, uma tirada escrota, um cutucação que doeria no ego caso você não tivesse motivo pra ter um, uma piada ofensiva em público, uma inocente virulência preconceituosa com alguma deficiência ou estigma social de alguém por algum motivo… “Hey, camarada, você saiu muito bonita na foto, embora talvez tenha preferências por outras mulheres e devo respeitar sua opção sexual que você escolheu conscientemente e não devo ter opiniões sobre sua sexualidade”… chama logo de GOSTOSA, seu baiacu!

E você percebe que é tudo uma falsidade do caralho, que eles precisam sempre dessa masturbação mútua coletiva só para acreditarem que são MESMO interessantes, já que os membros do mesmo grupinho são também interessantes, conscientes, livres de preconceito, politicamente corretos, progressistas, chatos que só um livro do Gabriel Chalita e o cúmulo do progresso humano sem nunca precisar ler sequer as orelhas de Karl Popper.

Puta merda, um mundo em que não podemos xingar os próprios amigos?! Fora a linha leste do trem em horário de pico, poucas coisas parecem tanto a definição de inferno quanto esse moralismo ridículo em que cada pensamento impuro precisa ser engolido, silenciado e guardado para se pedir perdão no fim do dia.

Sou reaça porque sou legal pra caralho.

Acho que a gente precisa pensar com bem mais atenção no que esses caras estão dizendo, e no que eles estão propondo – porque o que está em jogo são duas visões de civilização diferentes, e cada uma acha a outra doente e impossível. Uma é dos “babacas” – a do trecho acima – e a outra, a que eu defendo, na visão deles é a dos “frescos”.

Eduardo Ochs
eduardoochs@gmail.com
http://angg.twu.net/
Versão: 3/maio/2013.

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